A supervalorização do outro e a possível vergonha de si

João Paulo Corumba

Psicólogo. Psicoterapeuta. Mestre em Psicologia pela UFS.

Quando supervalorizamos o outro, do ponto de vista libidinal, e o colocamos em um lugar de importância extrema no templo da admiração e do desejo amoroso e sexual, podemos, de alguma forma, vivenciar a vergonha de nós mesmos.

A vergonha está profundamente ligada aos ideais, e aquele que supervalorizamos nas dimensões descritas acima representa tudo aquilo que gostaríamos de ter ou ser. O outro se encaixa no ideal que buscamos e, por isso, pode adquirir um poder imensurável sobre a nossa vida interior, caso não tenhamos o devido cuidado.

O sujeito que supervaloriza tende a se sentir inferior, e é justamente nesse sentimento de inferioridade que encontramos um laço com a vergonha, marcada pela sensação de exposição de nossos aspectos considerados negativos. Assim, temos as duas configurações passionais da vergonha apontadas por Harkot-de-la-Taille: a exposição e a inferioridade.

É comum ouvirmos de alguém apaixonado o discurso de quem se sente envergonhado para se aproximar do objeto de desejo, dizendo: “ele(a) é muita areia para o meu caminhão”. Nesse tipo de fala, fica evidente o quanto o outro foi colocado em uma posição de superioridade. Quando o colocamos em um degrau acima, corremos o risco de sofrer com a vergonha por não nos considerarmos dignos de viver um amor, flertar ou sequer tentar uma aproximação.

Essa é uma problemática bastante frequente. Pessoas consideradas belas, por exemplo, muitas vezes deixam de conhecer alguém interessante porque esse outro se sente intimidado diante da possibilidade de contato. “Ele(a) é demais para mim”, pode pensar aquele que se sente acuado, tomado pela vergonha de si e de seus próprios atributos físicos ou de personalidade.

Vale a pena refletir sobre esse tema. Ele é muito mais comum do que imaginamos, e talvez esteja mais presente em nossas experiências afetivas do que gostaríamos de admitir.

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